quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Fotografia





Diz-se que o vermelho amargurava fino traço negro.


Toda manhã os cílíos rentes ao mundo se prendiam a uníssono tom, que era para deixar o olhar pronto, que quem o visse soubesse, - estes olhos sobrescrevem o abismo.
Enquanto segurava seu lápis bourjois, Maria, que era Maria porque não nascera Teresa, segurava também a verdade, riscava o que via antes de o ver, metia-se na vida como quem brinca, mas de fato circunscrevia a mira. Tudo o que houvesse abaixo da sua escuridão voluntária, mais singela que qualquer coisa que lhe caiba, fosse mesmo de enigma menor, nada como o que sua íris engloba.

Daí importa que tudo acabe. Ninguém se pergunte mais do que isso. Que a pergunta nem sempre traz resposta, mas inquieta.



Diz-se que o vermelho amargurava.



Mas seus lábios permaneciam imóveis, sabe-se porque não se ouvia. Talvez até caminhasse aquele que sentava. Que sua visão era o numinoso fechando os sentidos.
Alguém seguramente escreveu que ela mirava a Hera que subia os muros. As folhas secundárias verdes, como se as janelas de Maria se fechassem ao entardecer, mais escuras que sua íris. E depois o que vinha, não sei. Ela foi. Seu olhar ficou no muro. Tal hipnose de perfume inodoro. Atrai e prende, e ser presa atrai. Todo um resto de desfoque e uma impressão vaga de caminho.

Quanto tempo, que se mede aqui por abertura e exposição, os relógios já erram, cerram, suas pálpebras.



Diz-se fino traço negro.


O verde cala com Maria, que muda disse, quando viu o silêncio.
E eis que, ao abrirem os olhos de sombra,


assombro,




sentiram-se delineados por ternura.

domingo, 13 de dezembro de 2009



estou tentando livrar a cara do medo
mas ninguém vive sem furtar coroas o presente


[e uma risada embasbacada de desgosto.




terça-feira, 10 de novembro de 2009

eu [ou como se quase diz o que se sente.]


.,



Tanto o peso prendia o passo no instante mais,


uma brás ilha que se alagava, mas não movia monumentos,




soltei as amarras e flutuo.


N'um céu de mármore e grama,


caminho o tempo, antes que o tempo me encaminhe.





A falta,



J..

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

I - Moro em todos os lugares


aos cegos,
que sentem mais
do que veem



"E de novo o embrutecimento suave o dominava. O chão era tão longe que, abandonando o corpo, este por um instante experimentava a queda no vácuo."

A maçã no escuro - Clarice Lispector



"O meu apartamento fechava-se como um punho.
Eu tinha visto o cedro fincar-se no cascalho e salvar da morte o leque de ramagens.
O cedro, que combate noite e dia, na sua própria densidade,
e se alimenta num universo inimigo dos seus próprios fermentos da sua destruição,
nunca mais tem sono.
O cedro a cada instante se funda."

Cidadela - Antoine de Saint-Exupéry




I

MORO EM TODOS OS LUGARES


Tenho
a dizer em minha defesa que desde Maria não durmo.

Não carece saber meu nome, apenas que não durmo. Experiencio a defasagem temporal de 24 horas que se repetem e se repetem e se. Já não sei o que houve. Se por algum instante iminente saberia. Maria se foi com a verdade. E eu sei que em tudo eu quase sei.

A primeira vez que a vi, reparei em seus dentes, grandes, brancos, pingavam leite, queria bebê-los. Quando sorria, seus lábios vermelhos de tal rubro estranho que nenhum batom pinta, nem a rotina encontra, eram coloridos pelas horas. Pareciam esbanjar a felicidade branca do que guardavam e era inacabável. O sorriso sorria Maria fatorialmente. Meus olhos eram embebidos em simetria por cada resquício de branquidão. Lembro-me bem que, antes de me cativar, sua boca fazia questão de enrugar as quinas do rosto, espremendo rubro sobre rubro, já uma dança, tango, devorava-me a própria visão.

É mais que um bilhete roubado, não são as direções dos trilhos do trem, muito menos os sentidos que me importam. Posso estar em Viena, no Jalapão, embaixo d'água, no Ártico, no espaço, morto, que ainda o que meus olhos veem ou viam ou veriam está impresso em minha retina, a última imagem, os dentes de Maria.

Mas não. Não. Poderia ter esquecido de todo o resto a partir deste instante em que na sala 207, quando o relógio já trombava entre as horas e os minutos, a moça de véu veio ao meu encontro. Alguém diria que sua origem era muçulmana, porém um observador mais atento logo entenderia a sua paixão por tecido que plana. Os cabelos tentavam se esconder embaixo das linhas de algodão, mas a brisa que vira arremessava o conjunto para cima. E então. Somente então, eis que vem vindo, as covas, as mãos apreensivas tentam conter o véu de partir, os passos se interrompem, ela me mira de uma olhar que vem baixo e se ergue, as bochechas já róseas,
sorri.

Creio que nesse dia o céu se recusou a tirar as nuvens para dançar, por isso o vento úmido, abrigando os passos, como rosas encaminhadas, pétalas que se arregaçam, sinto que o mundo de Maria se abre neste enquanto. Ela se aproxima lentamente, tento imaginar o que procura, posiciona sua mão sobre a minha, segura-a, aperta, e agora me olhando
diz.

Esperava e continuo esperando que meu olhar dissesse de volta, mas talvez sejam besteiras que as ventanias contam aos sábados, apenas para nos advertir que todos os domingos são dotados de marasmo e solidão.

Algumas vezes os sentidos nos pregam peças, até hoje eu não sei se o que foi dito era um pedido ou uma sentença, embora tenha sido o suficiente para me arrancar da sala quase ensolarada, quase escurecida, por folhagens de cerejeiras da praça principal. O corredor que se segue porta afora, aquele mesmo corredor de todos os dias, se tornou parte da minha história dentro da que Maria haveria de contar.

É disso que tudo se trata: uma história. Nunca saberei se ela o fez para se livrar ou me amaldiçoar. A verdade é que o fez.

Certas pessoas possuem uma mania peculiar, indizível, algo arbitrário, nascem com isso, vivem ligando os outros a elas. Ninguém entende bem o motivo, se pelo jeito de se portarem, os detalhes, se buscam sempre estar próximas dos abismos alheios ou se simplesmente arrastam minunciosidades por onde passam. Eu estava completamente ligado às suas mãos, tal véu, encurralado, não foi difícil me convencer a adentrar aquele bar de mesinhas em xadrez, bastou que me mirasse.

Céus! Como se seus cílios amarrassem os meus!


Pois se sabe, quando a pertubação é tão grande, os olhos se recusam a fechar e quando fecham é para permanecerem acordados.


Depois que nos sentamos, tive a certeza de que ela não fugiria a qualquer instante - na verdade não tive a certeza de nada, mas quis me enganar que sim -, ao menos não ali. O lugar se assemelhava a um comum botequim dos anos 50, fora o fato de que também era uma sorveteria. Entre os golpes toscos de cachaça, crianças e seus avós embriagavam-se de açúcar em potinhos de neve, todos os risos eram bêbados.

Guardar histórias no bolso da camisa, na sola dos pés,... Ah... Tive a impressão de que quem frequenta essa iguaria guarda mesmo histórias embaixo das unhas, discretas, doloridas e grifadas em carne viva.


"É longe". Foram as primeiras palavras de Maria.

E finalmente deixou que o véu escorresse por cima de seu colo.



sábado, 4 de julho de 2009

: há,


http://www.flickr.com/photos/dcdead/


como que um pedido, o sopro. delicadamente folha a folha se eriça até seus pés. os olhos cerrados só percebem a luz rarefeita deixada pelos cílios que se erguem. um chiado, o vento toca o campo com notas de pressa e sossego. o frio lhe serve de desculpa pra cravar as unhas de braços entrelaçados na pele. as rugas dos olhos que não são de idade expremem célula por célula, uma sobre a outra, apaixonadamente, fazendo da visão um limão partido, em que seus gomos são forçados a se compelir e, na desistência de se deixarem, liquefazem.

Maria, Maria, se a solidão só destila fraqueza...