quinta-feira, 15 de julho de 2010

muito é o tempo



maria!

não sabe o caminho.

maria! maria! volte aqui!

maria!

não sabe o caminho.


porque nunca foi desenhado. não existe em um mapa, nem em um quadro ou um risco ou um borro. não é feito de estrelas, nem pedras, nem pistas. não há como segui-lo, nem prendê-lo, capturá-lo entre os dedos. porque o caminho está confinado em um tinteiro e se estende em todas as direções.

porque o tinteiro nunca deixou a estante da loja. nem a fábrica de origem. nem a ideia que o criou. porque não existia ideia. ela agora existe. existe e caminha. não, mais rápido do que isso, nesse enquanto os pés de maria giram no ar, e a ideia é algo que se pedala e imprime histórias no asfalto e não diz onde, nem quando, que, se maria nunca parar, não acaba, não existirá, nem existiu,
o caminho é sempre presente.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Direito urbano



Estava caminhando na direção do fórum. Meus pés tremiam e a visão era turva, já se confundia entre a paisagem e um ponto no infinito. Segurava a maleta preta, ela acompanhava meus passos no sentido contrário. Era um movimento pendular e frenético, eu não queria parar. Seguia o tumulto que enche o centro nas tardes escaldantes de agosto. Os carros lutavam para se movimentar nas vias que os transeuntes invandiam e não se preocupavam com o fluxo, a não ser o próprio.

Neste enquanto, minhas pernas conheciam a dor. Sentia o ácido lático no meu corpo, podia mensurar seu movimento. Queria parar. Não. Eu não podia parar. Tinha que alcançar o fórum, era o meu cansaço ou o processo mais importante da minha carreira. Eu não podia falhar. Mas o sinal abriu. Abriu. Por que diabos não esperei que ele fechasse novamente? Meus braços se moviam, possuía os sapatos sobre o negro do asfalto, o branco de tinta, o negro, o bran. Foi tão rápido. Eu não percebia, uma porta que abruptamente se abre e sou bruscamente puxado para dentro.

De repente, estava parado. Mais do que isso, estava no escuro. Algo me envolvia, não enxergava, não conseguia pronunciar palavra alguma, grunhia. Minha circulação não sei se desacelerava ou o pânico que pulsava, só percebia os solavancos do peito e o carro. É. O carro, que é a única coisa que se move e abre portas no trânsito e tem cheiro de borracha.

Pela primeira vez, ouvia uma voz. O que a gente faz com a maleta? Alguém, ao meu lado, respondia. Vamos queimar. Não. Não. Isso não era possível. Eu queria me mexer. Eles não podiam. Não tinham esse direito. Eu. Eu. Eu estava. Imobilizado. Foi quando percebi que talvez me queimassem junto. A partir desse instante, só conseguia pensar em minha mulher. Ela preferia morar em uma cidade pequena. Nada disso estaria acontecendo, se eu, na minha vã ignorância, tivesse lhe dado ouvidos.

Não havia o que fazer. Eu transpirava ou era choro, não sei, o desespero não se diz. Sentia as trepidações do carro. Elas se tornavam vagarosas. Mais vagarosas. Mais. E param. Uma porta novamente é aberta, sou jogado para fora e o carro partia.

Demorei certo tempo para perceber que estava sozinho. Não fosse o cheiro de terra e poeira, não saberia que estava no mato. Rolei, tateei o chão, achei uma pedra. Com muito custo, consegui me desvencilhar das cordas, mordaça, capuz. Via. O sol me cegava. Via. O sol me queimava. Arfava o calor, o tempo, a poeira. Eu me levantei. Não sabia onde estava, mas comecei a andar. Estava caminhando na direção do fórum. Meus pés tremiam e a visão era turva, já se confundia entre a paisagem e um ponto no infinito.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

lágrima



mar mar mar mar água

mágua

domingo, 16 de maio de 2010

III - no princípio era um vão que cai


, upload feito originalmente por mary_robinson.






estou tentando capturar um sentido
beira de estrada e significado
uma travessia de destino e vontade
assisto os corpos que passam e levam
as horas esbarradas de um encontro
que não chega
beijando, a um sorriso, grama verde
muito verde
e água que corre sem cor
permaneço na iminência de mover
o sapato risca o vento e o olhar foge

do prin ci pí cio

sexta-feira, 7 de maio de 2010

"Não se pode fugir a um infinito, disse comigo, fugindo em direção a outro infinito; não se foge da revelação do idêntico, na ilusão de que se pode encontrar o diverso."



Umberto Eco - O pêndulo de Foucault







"As sombras dizem mais às pessoas solitárias, são sempre um esboço menos severo de algo. Se intensas e contínuas, o que nos resta é breu de luar, faz dos olhos nebulosas inconstantes que se abrem e apagam. Nunca sei o que realmente se passa no escuro, quando cerro minhas pálpebras, e nego com inocência infantil que o que miro ao abrí-las possa vir a ser uma miragem ou uma peça que o passado me pregou. Há muito nos instantes em que me ausento. Há tanto que horas se tornam inacabadas por milésimos de segundo inconcebidos.”

 

Maria parava por sabe-se lá quanto tempo, uma ou duas pitadas de ponteiros. A minha mudez era tamanha que o silêncio fazia com que meus ouvidos doessem. Enquanto ela tocava a xícara com os lábios, minha percepção mais aguçada se encontrava, penso que conseguia ouvir o líquido se movendo.