terça-feira, 28 de outubro de 2008

Até a terra dos medos (parte 1)


Sugar Rain...................Sugar Snow, upload feito originalmente por ƒreg.

"el uno en el pucho del otro, nos frotábamos con los ojos, estábamos tan de acuerdo en todo que era una vergüenza,..."


(o primeiro no resto do outro,
nos esfregávamos com os olhos,

estávamos tão de acordo em tudo

que era uma vergonha,...
)





Andava apressada naquela manhã chuvosa de novembro. O coque mal permanecia intacto e as mechas lisas teimavam a escorregar de encontro aos olhos. Nem tivera o tempo de mirar o amassado corriqueiro na barra do vestidinho branco. Ajeitou a cruz vermelha em chapéu e rumava para o asilo. Acordara tardiamente ou eram seus pés pequenos demais para o chão em tão curto enquanto. E esse guarda-chuva (!). Que guardava mais chuva que ela. Cada gota a fazia mover com maior freqüência, meio que a se enganar que chegaria límpida - e pronta o suficiente para não perder o emprego.

Agora via o portão entreaberto no qual a água ricocheteava, respingando no seu rosto. Preferia ignorar qualquer erro, pensou, quase tomando as grades azuis descascadas com o punho esquerdo. Menos aquilo. Um corpo, quase um homem, solapara no asfalto, arrastado pela jorrada, vindo bater na grade dois metros ao seu lado. Caminhou na sua direção. Sangrava, mas seus olhos continuavam absortos, não aparentava dor. Apoiou-o em seus braços e enquanto adentrava o asilo ele parecia não se importar. Na verdade, parecia mesmo nem notar a sua presença, como se ainda estivesse sendo levado pela chuva.

A sombrinha entrou guiada pela corrente de água no nicho que a porta aberta deixara, batendo nos pés de um idoso.

-Belinda, você voltou?

-Não, Serafim, sou eu! Preciso de ajuda, vá chamar os outros enfermeiros.

Ela pegou a maca já em desuso, devido aos mínimos acidentes que ocorriam, e o depositou. Guardou-o ali como se fosse uma caixa perfeita. Geometricamente perfeita. Olhou em seus olhos outra vez. Lembravam vidro. Será que havia perdido muito sangue? Não, Não... tinha certeza de que o trouxe o mais rápido que pôde. Foi chegando mais próxima do rosto, devagar... Encostou sua testa na dele. Piscou.

-Eu não sinto nada.

Esborrachou apavorada e desconcertadamente, ele tinha alma afinal.

-E só agora me diz que vive? Como não sente?
-Tenho CIPA, não sinto dor.
-Oras, mas supostamente você deveria sentir ao menos a pressão do toque.
-É, creio que minhas fibras de compressão atrofiaram ou de tanto só sentir esboço, esqueci de apontar o lápis outra vez.
-De qualquer forma, não sairá daqui até cuidar desses ferimentos... é.. hã...
-Ernesto.

A enfermeira sorriu.

-Os outros devem estar a caminho.
-Obrigado, Marcela.
-Por nada... Ah!Como sabe...
-Quem não sente nada, ao menos alguma coisa tem que enxergar.
-O quê?
-Seu crachá.
-Já tinha...
-Eu sei. Pode ir, não se incomode.

Saiu atrás do seu guarda-chuva, um tanto embarassada, sabendo que teria que ler novamente a mesma história para o Senhor Carmela. Já se estranhando, trouxe a esse asilo a entrada de duas almas - temporalmente avessas.

10 comentários:

Solin disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jéh.*~ disse...

es la continuación!

:}

Lasevitz disse...

"(...) no habría más que sumergirte en un vaso de agua como una flor japonesa y poco a poco empezarían a brotar los pétalos coloreados (...)".

gostei da água jorrando, da grade azul que descascava, do homem sendo arrastado, da mulher que não foi.

me permiti sem te consultar banhar-me na sua chuva enquanto não havia leitores à espreita. agora me ponho à tua espera em frente ao portão, enquanto pacientemente termino de descascar esse azul, que também é meio que descascar tempo (puxei um pedaço grande agora, tempo enfiado pela unha).

me escondo entre uma linha e outra, por volta do terceiro parágrafo, graças a algum truque de formatação desses modernos. estarei disfarçado de pontuação jogada em poça dágua e que faz pequenos círculos, e outro, e outro, agora um quadrado.

serei o rapaz com o guarda-chuva verde em uma das mãos, a brisa azul escura na outra.

outro selo,

R.

ps.: uma pedra lançada aleatoriamente por através das nuvens pode entrar em atrito com o ar e se tornar incandescente, e despencar, e despendurar-se, até cair por mera coincidência em rslasevitz@yahoo.com.br, onde eu posso talvez me guardar quando o céu está azul.

Solin disse...

buenissimo
vou ler de novo O.O

Solin disse...

Ernesto será o nome do meu filho *.*



mulher, tu tens uma varinha de condão no lugar do lápis. qdo eu leio, o rabisco da varinha de condão faz mágica nos meus olhos e imaginação.

e não seria essa de um escritos a missão?

Um beijo na sua pupila
; )

Solin disse...

*e não seria essa, de um escritor, a missão?*

Luiz Felipe Leal disse...

incrível essa coisa de letras, que repara a dobrinha no vestido branco e tudo.

evy disse...

Prazer,Ernesto.
mesmo que eu fosse a sua gestante,nunca imaginei que sairia algo tão Jéssica e Serafim como é você aqui em "edição especial pra colecionadores".
amei,Jêzz.

M is burning disse...

Por que eu n consigo escrever um livro e tu já tá no segundo? às vzs me bate uma inveja, sim. hauahau

Paula § Danna disse...

Ele tinha alma afinal..
mas não alma o suficiente para sentir dor.
Será que o guarda-chuva choveu tão forte por dentro, que a levou?!

hummm...