sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A-pesar


Nasser caminhava pelas vias do fórum em busca da mecanografia, precisava de cópias de um processo pelo qual indiciou uma empresa. No caminho, via sua imagem refletida nos espelhos do Hall, esse não podia ser ele. Lembrava-se fielmente dos lindos cabelos que escorriam pelo rosto, que agora haviam sido tomados por uma calvície irreparável. O que mais lhe incomodava eram as rugas, sempre tivera um rosto tão rijo, para onde ele foi?

Parou de súbito ao perceber que quase trombara com a fotocopiadora. Sentiu que finalmente solucionara sua charada existencial: queria ser uma fotocópia de quando era jovem. "Por que é mesmo que isso devia se perder?", indagou-se. A esposa já não era a mesma, nem mesmo os olhos, aquele brilho de recém-casados envelheceu com o resto do corpo, com a alma.

Semana que vem faria 50 anos de idade e 30 de casado, já com as cópias nas mãos, talvez devesse comprar uma jóia para Alin, ela merecia por ter agüentado este traste. Já não é mais tão bom na aparência, no conforto, muito menos no sexo, não sabia como ela suportara. Nem Nasser se suportava.

Teresa o interrogou no caminho de volta sobre algo que não deu ouvidos, talvez esse fosse o motivo pelo qual batia freneticamente na porta de vidro da sua sala agora. Abriu a porta. "Diz". Ela o fitou de cima em baixo, os mesmos sapatos, o mesmo terno, a mesma gravata surrada de sempre. "Eu não acredito que você se esqueceu..." Mas é claro que iria se esquecer da festa "surpresa" para aniversariantes do mês da empresa. Era sua sentença de morte, do quão mais próximo ficava dela.

Virou as costas, deixou Teresa gritar, deixou o escritório na lista de espera, precisava de Alin, ela sabia dele, de antes, do brilho fosco e envelhecido. Tomou o volante nas mãos, fez curvas bruscas, tais como as que nunca ousara fazer durante a vida nova. Abriu o portão, alcançou o quarto de hóspedes, ela continuava lá, naquela maca, imóvel, muda, com aqueles olhos absortos. Beijou sua fronte. Nasser sabia que ela não o via por fora, mas ainda inteiramente por dentro. Para ela, Nasser não tinha rugas, nem calvície, tinha saudade.

3 comentários:

Solin disse...

como tem de ser num amor que acredita-se ser amor.

evy disse...

Jess,eu não sei aceitar como a Natureza pôde fazer uma pessoa tão interdisciplinar como você.Você me completa os sonhos lterários como nem eu mesma sei aonde me falta.
Nunca morra.
ah,sim....adorei o texto.vc sabe*
Evy

Solin disse...

"Se é que existe
Alguém que realmente te aguente
Capaz de realmente te amar

Mesmo que não acredite
Em amor de verdade um beijo de filme
Tem que haver
Alguém nesse mundo
Que não te despreze
Que não te repulse
Pois mesmo que não acredite
Em conto de fada em beijo de filme
Tem que haver
Alguém pra te amar"

lembrei só disso.